O que os dados revelam sobre o risco cibernético no Brasil em 2026
O estudo Panorama do Risco Cibernético 2026, produzido pela consultoria Vultus com base em projetos reais conduzidos em 132 organizações de 11 setores da economia, entregou um diagnóstico desconfortável: a maturidade em segurança das empresas brasileiras cresceu 5,6% em relação ao ano anterior. Apesar disso, a probabilidade de um ataque bem-sucedido aumentou 3,7% no mesmo período.
Em outras palavras, as empresas estão melhorando. Porém, os atacantes estão melhorando mais rápido. O risco global recuou apenas 2,8%, evidenciando um descompasso estrutural entre a evolução interna das defesas e a dinâmica real das invasões. O KillChain Score médio ficou em 8,28, numa escala de 0 a 10, indicando que, uma vez iniciado, o ataque ainda tende a atingir níveis elevados de impacto.
Quando o problema não está onde você está olhando
Alexandre Brum, CEO da Vultus, resume bem o paradoxo: enquanto o mercado discute inteligência artificial e computação quântica, os atacantes continuam obtendo sucesso ao explorar o básico. Falhas simples, configurações inadequadas e senhas previsíveis ainda são responsáveis pela maioria dos acessos iniciais registrados nos testes. Isso não significa que inovar é errado. Significa que inovar sem corrigir o básico é construir um castelo sobre areia.
Os números que explicam o problema
Os Red Team Assessments conduzidos no estudo revelam onde a defesa falha na prática. Em 45,2% das simulações, o acesso inicial ocorreu por falhas básicas: vulnerabilidades de software, configurações inadequadas e lacunas na gestão de identidade. Em 26,2% dos casos, o acesso foi obtido com uso de credenciais válidas, sem precisar quebrar nenhuma barreira sofisticada. Em 38,1% dos testes, ambientes em nuvem operavam sem autenticação multifator habilitada. Em 35,7% dos casos, ataques tiveram sucesso ao explorar senhas previsíveis. Em 21,4% das simulações, credenciais capturadas fora do ambiente corporativo permitiram acesso direto aos sistemas internos. E em 23,8% dos testes, foi possível acessar VPNs corporativas sem qualquer informação prévia. Somados, falhas básicas e uso de credenciais válidas concentram mais de 70% das portas de entrada utilizadas pelos atacantes.
O fator humano que nenhum firewall bloqueia
Além das falhas técnicas, o estudo mapeou mais de 80 mil interações simuladas de engenharia social. O resultado é impactante: a cada 34 usuários que abriram um e-mail fraudulento, 3 forneceram credenciais válidas aos atacantes.
Parece pouco. Contudo, em uma organização com 500 colaboradores, isso representa aproximadamente 44 pessoas capazes de entregar as chaves do sistema a um criminoso sem perceber. A engenharia social não explora sistemas. Explora comportamentos. E comportamentos mudam com educação, não com tecnologia.
Os setores mais expostos
O risco é elevado em todos os setores avaliados, porém não é homogêneo. O estudo aponta que serviços lideram o ranking de risco com KRI de 8,21, seguido por tecnologia (8,12) e saúde (7,96). Setores historicamente mais regulados, como financeiro (7,86) e telecomunicações (7,84), também mantêm níveis elevados de exposição.
O paradoxo dos setores regulados merece atenção especial. Apesar de possuírem políticas mais rígidas e investimentos maiores em segurança, a dificuldade de executar controles de forma consistente em ambientes complexos cria lacunas que os atacantes exploram com precisão. Ter a política escrita não é o mesmo que ter o controle funcionando.
O elo mais fraco: governança e capacidade de resposta
A análise de maturidade do estudo expõe um desalinhamento estrutural preocupante. O pilar de tecnologia apresenta o maior nível de maturidade entre os avaliados. A governança aparece na última posição. Apenas 23% das organizações possuem processos estruturados de continuidade de negócios. E mesmo entre as que possuem, os planos frequentemente estão desatualizados ou desconectados dos riscos reais da operação.
O resultado prático é devastador: empresas com controles implementados, mas sem capacidade de sustentar a operação diante de um ataque, amplificam o dano com indisponibilidade prolongada e perdas operacionais e financeiras muito maiores do que o necessário. Contudo, o problema não é falta de tecnologia. É falta de governança sobre a tecnologia que já existe.
O que a ausência de governança gera na prática
A falta de governança produz consequências concretas: controles existem, mas não são monitorados de forma consistente; exceções são criadas e nunca revisadas, abrindo janelas permanentes de vulnerabilidade; planos de resposta a incidentes existem no papel, mas não são testados regularmente; e a responsabilidade pela segurança fica concentrada em TI, sem engajamento das demais áreas.
O erro mais comum nas organizações brasileiras
Investir em soluções avançadas antes de resolver o básico é o padrão mais recorrente identificado no estudo. Organizações adquirem ferramentas sofisticadas de detecção e resposta, porém ainda operam com senhas fracas, sem autenticação multifator e sem processos claros de gestão de identidade.
É como comprar um carro blindado e esquecer de colocar o cinto de segurança. A proteção existe, mas a vulnerabilidade mais simples permanece exposta. Apesar disso, a correção não exige grandes investimentos. Exige priorização.
O que precisa mudar agora
Com base nos dados do Panorama, algumas ações são prioritárias para qualquer organização que queira reduzir sua exposição de forma concreta e imediata: implementar autenticação multifator em todos os ambientes, especialmente em nuvem, onde a ausência desse controle foi identificada em mais de 38% dos testes; revisar e fortalecer políticas de senhas, eliminando combinações previsíveis e bloqueando reutilização de credenciais; mapear e controlar credenciais expostas, incluindo aquelas capturadas fora do ambiente corporativo por meio de infostealers; estruturar e testar planos de continuidade de negócios, garantindo que a organização consiga operar e responder durante um incidente real; investir em capacitação contínua de colaboradores, reduzindo a superfície de ataque humana que a engenharia social explora; e tratar governança como prioridade estratégica, não como responsabilidade exclusiva da área de TI.
Segurança não é só tecnologia. É decisão
O Panorama do Risco Cibernético 2026 deixa uma mensagem clara: o maior obstáculo para a segurança das organizações brasileiras não é a sofisticação dos atacantes. É a persistência de falhas básicas que continuam sem correção ano após ano.
A boa notícia é que os vetores mais explorados são também os mais controláveis. Gerenciar acessos de forma inteligente, implementar autenticação multifator e capacitar pessoas são ações ao alcance de qualquer organização que decida tratar segurança como prioridade de negócio, não apenas como responsabilidade técnica. Todavia, decidir não basta. É preciso estrutura, método e acompanhamento contínuo.
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Gerenciamento de Acessos: A Falha Básica que Abre a Porta para 70% dos Ataques Cibernéticos
Perguntas frequentes sobre os principais vetores de ataque identificados no Panorama do Risco Cibernético 2026, o papel da governança na segurança e o que as organizações precisam corrigir agora
O estudo, conduzido com base em projetos reais em 132 organizações de 11 setores da economia, entregou um diagnóstico desconfortável: a maturidade em segurança das empresas brasileiras cresceu 5,6% em relação ao ano anterior. Apesar disso, a probabilidade de um ataque bem-sucedido aumentou 3,7% no mesmo período.
Em outras palavras, as empresas estão melhorando — mas os atacantes estão melhorando mais rápido. E o caminho que eles usam raramente é o mais sofisticado. Os Red Team Assessments do estudo mostram onde a defesa falha na prática:
- Em 45,2% das simulações, o acesso inicial ocorreu por falhas básicas: vulnerabilidades de software, configurações inadequadas e lacunas na gestão de identidade
- Em 26,2% dos casos, o acesso foi obtido com uso de credenciais válidas, sem precisar quebrar nenhuma barreira sofisticada
- Em 38,1% dos testes, ambientes em nuvem operavam sem autenticação multifator habilitada
- Em 35,7% dos casos, ataques tiveram sucesso ao explorar senhas previsíveis
Somadas, falhas básicas e uso de credenciais válidas concentram mais de 70% das portas de entrada utilizadas pelos atacantes — confirmando que inovar sem corrigir o básico é construir um castelo sobre areia.
Além das falhas técnicas, o estudo mapeou mais de 80 mil interações simuladas de engenharia social. O resultado é impactante: a cada 34 usuários que abriram um e-mail fraudulento, 3 forneceram credenciais válidas aos atacantes.
Parece pouco. Mas em uma organização com 500 colaboradores, isso representa aproximadamente 44 pessoas capazes de entregar as chaves do sistema a um criminoso sem perceber.
A engenharia social não explora sistemas. Explora comportamentos. E comportamentos não mudam com tecnologia — mudam com educação. Nenhum firewall bloqueia um colaborador que, sob pressão de urgência, fornece sua senha a um atacante que se passa por um colega ou superior.
É por isso que investir em capacitação contínua dos colaboradores é tão essencial quanto implementar controles técnicos: a superfície de ataque humana precisa ser reduzida de forma deliberada e consistente.
A análise de maturidade do estudo expõe um desalinhamento estrutural preocupante: o pilar de tecnologia apresenta o maior nível de maturidade entre os avaliados. A governança aparece na última posição.
Apenas 23% das organizações possuem processos estruturados de continuidade de negócios. E mesmo entre as que possuem, os planos frequentemente estão desatualizados ou desconectados dos riscos reais da operação. O resultado prático é devastador: empresas com controles implementados, mas sem capacidade de sustentar a operação diante de um ataque, amplificam o dano com indisponibilidade prolongada.
Na prática, a ausência de governança se manifesta assim:
- Controles existem, mas não são monitorados de forma consistente
- Exceções são criadas e nunca revisadas, abrindo janelas permanentes de vulnerabilidade
- Planos de resposta a incidentes existem no papel, mas não são testados regularmente
- A responsabilidade pela segurança fica concentrada em TI, sem engajamento das demais áreas
O problema não é falta de tecnologia. É falta de governança sobre a tecnologia que já existe. Ter a política escrita não é o mesmo que ter o controle funcionando.
A boa notícia é que os vetores mais explorados pelos atacantes são também os mais controláveis. A correção não exige grandes investimentos — exige priorização. Com base nos dados do Panorama, as ações mais urgentes são:
- Implementar autenticação multifator em todos os ambientes, especialmente em nuvem, onde a ausência desse controle foi identificada em mais de 38% dos testes
- Revisar e fortalecer políticas de senhas, eliminando combinações previsíveis e bloqueando a reutilização de credenciais
- Mapear e controlar credenciais expostas, incluindo aquelas capturadas fora do ambiente corporativo por infostealers
- Estruturar e testar planos de continuidade de negócios, garantindo que a organização consiga operar e responder durante um incidente real
- Investir em capacitação contínua de colaboradores, reduzindo a superfície de ataque humana que a engenharia social explora
- Tratar governança como prioridade estratégica, não como responsabilidade exclusiva da área de TI
Proteger dados não é apenas uma obrigação legal. É uma decisão de negócio — e o momento de tomá-la não é depois do próximo incidente. É agora.